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Por Olímpio Cruz Neto
Há oito anos, no dia 11 de outubro de 1996, o Brasil perdia Renato Russo, o maior compositor do rock brasileiro dos anos 80 e 90. Naquele dia, um dos mais irriquietos cantores e poetas do Brasil cerrava os olhos e entrava para a galeria de mitos do rock'n'roll, tornando-se referência constante para a juventude brasileira, ansiosa por sua poesia marcada pela ética e pelo amor. Renato, além de um excepcional letrista, foi um grande cantor e um artista complexo, em permanente estado de ebulição. O jovem Renato Manfredini Júnior morreu, mas a gigantesca sombra do mito permanece. Para muitos, parece mesmo que ele jamais se foi. Pudera. Este ano, o culto à Legião Urbana e Renato continuou crescendo à medida que seu trabalho ganha mais fãs e suas composições, novos intérpretes. Sim, porque a Legião Urbana continua sendo citada em entrevistas e gravada por bandas e músicos. Senão, vejamos... Os Paralamas do Sucesso lançaram o seu Acústico ancorado em Que país é este?... Capital Inicial incluiu em seus shows a mesma canção, embora tenha diversas outras gravadas com a assinatura de Renato... Jerry Adriani lançou Forza Sempre um disco todo em cima do repertório da Legião, vertido para o italiano... Os Titãs gravaram Sete Cidades... O Barão Vermelho gravou Quando o sol bater na janela do teu quarto... O Ira! gravou Teorema... Zélia Duncan, Quase sem querer... Os Raimundos estão cantando Soldados em seus shows... E Cássia Eller também. E, no final de outubro, saiu o aguardado Acústico da Legião, gravado em 1992 para a MTV brasileira e que, no momento do fechamento deste texto, já havia batido recorde, vendendo cerca de 700 mil cópias. Um feito raro para qualquer artista brasileiro. Certamente, um reconhecimento ao talento de Renato. Poucas vezes, no rock brasileiro, um artista foi elevado à condição de semi-deus. Talvez apenas Raul Seixas, outro grande nome da música brasileira. Os discos de sua carreira solo, bem como toda a obra da Legião, continuam em catálogo, vendendo sempre bem nas lojas. Existem pelo menos 4.464 páginas que mencionam ou destacam Renato Russo e à sua obra na Internet. Quase todas construídas por seus fãs. A fama, como se vê, só aumentou com o seu desaparecimento, uma regra na construção dos mitos do rock. É bem verdade que essa fama e o status de "monstro" do rock brasileiro fez justiça a Renato, que foi construindo a carreira como um bom artesão, moldando sua personalidade artística com integridade e, sobretudo, ética. Ele sabia o que queria desde o início, quando, ainda moleque, sonhava montar uma banda de rock. "Quem acredita, sempre alcança", repetia em entrevistas no início da carreira e que acabou virando tema da música XXX gravada com o 14 Bis em 1986. Renato acreditou sempre em si mesmo e na força do seu trabalho e, se existe hoje no país um rock com um discurso distante do banal e com forte conotação social e política, a juventude deve isso ao líder da Legião Urbana. Punks no cerrado?!?No final dos anos 70, quando o país já rumava para a reabertura política - lenta e gradual, como havia imposto o general Golbery do Couto e Silva, ex-chefe da Casa Civil do governo João Figueiredo -, Brasília também sofria com o fato de estar à sombra do poder dos militares. Antes da anistia política, em 1979, pouco ou nada havia para os garotos filhos da classe média que ocupava cargos na máquina administrativa pública. "Não havia o que fazer", afirmou Renato, em entrevista concedida ao jornalista Celso Araújo (líder da banda Akneton), em 1984. Não havia mesmo. Quando Renato era pouco mais que um adolescente, aos 16 anos, adorava as grandes bandas de rock dos anos 60 e 70, além do poeta Bob Dylan, o que o levava a divagar, nas tardes secas de Brasília, como seria montar um grupo de rock. Tímido e desengonçado, Júnior pensava ser o líder de uma banda – Forty Street Second Band -, na qual participariam Jeff Beck, Mick Taylor e outras figuras lendárias do rock. Júnior era Eric Russel, o cantor da banda.
Fê e Gutje: punks da Colina
Nascia ali, sem saber, o embrião da persona Renato Russo. Mas até aquele momento, só as paredes do quarto de Renato, que morava com os pais num apartamento funcional do Banco do Brasil, na 303 Sul, sabiam dessa sua banda. Eram divagações e sonhos na mente juvenil do rapaz franzino que usava óculos e era desajeitado devido a uma doença que o mantivera paralisado, na infância, por quase dois anos. Tudo vinha assim, sem muita pretensão até que, em 1977, eclodiu na Inglaterra o movimento punk: a revolta dos filhos da classe operária inglesa contra o establishment britânico e a pompa que cercava a Rainha Elizabeth e as lendas do rock. Aquilo foi o estalo para Renato Russo, que descobriu a existência e o nascimento do punk lendo as páginas da revista Pop (única publicação nacional que falava sobre rock no final da década de 70), numa matéria especial sobre a nova cena musical na Europa, a explosão do movimento nos Estados Unidos e um disco com algumas bandas... Renato estava na 907 Sul, no prédio da Cultura Inglesa, a tradicional escola de língua inglesa de Brasília, quando conheceu o escocês Ian, que acabara de chegar do Reino Unido falando das maravilhas da canção Anarchy In the U.K, do Sex Pistols... Renato ficou maravilhado com o papo. Nessa época, após oito anos de estudo, ele praticamente morava dentro da Cultura Inglesa, devorando livros e revistas sobre música e cultura. E também dava aulas. Era um cara muito bem informado para a sua idade. "Sabia um pouco menos que praticamente tudo sobre cinema e música americana e, aquilo que ele não sabia, tinha imaginação suficiente para inventar", lembrava, em 1985, o jornalista Alcimar Ferreira, amigo de Renato nos tempos da Cultura Inglesa e com quem estudou na Faculdade de Jornalismo do Ceub. "O blefe era seu trunfo capital, que tornava exasperantes nossas muitas polêmicas pelos corredores do Ceub, a respeito sempre do mesmo tema: música". Verdadeira enciclopédia de rock - tinha centenas de discos em casa - Renato era capaz de citar, infinitamente, nomes de trocentas bandas, desde as óbvias até as mais obscuras. "Algumas eu tinha absoluta certeza de que não existiam, porque eu lia de maneira contumaz todas as revistas inglesas e americanas, que nunca citavam aqueles grupos de nomes geniais", disse Ferreira. O colega de faculdade também mostrou-se convencido que Renato estava blefando quando, pouco antes da Legião lançar seu primeiro disco – o homônimo Legião Urbana -, disse em uma entrevista que andava ouvindo - "assiduamente" - o Menudo, grupo que acabou homenageando no Acústico, lançado postumamente. "Blefe. O tipo de trucagem na qual ele (Renato) é mestre: dizer exatamente aquilo em que está longe de acreditar", afirmou o jornalista. Ainda em 1979, um grupo de estudantes de Jornalismo, colegas de Renato no Ceub, se juntaram para lançar um livro de poemas, chamado Sinal. Ferreira lembrou, em texto escrito no Jornal de Brasília, seis anos depois: "O poema de Renato foi escrito num jato, um longo box verbal, uma pulsação ginsberguiana, um acerto artesanal com as palavras, ainda que faltasse a cirurgia, faca amolada". O livro é exemplar raro hoje em dia e poucos o têm. Nasce o Aborto Elétrico Renato era um bom garoto, ainda adolescente. Inteligente e intuitivo, não parecia que se tornaria o cara com o discurso afiado visto em Que País É Este? ou Conexão Amazônica, marcas registradas da sua primeira banda: o Aborto Elétrico. Sua mudança radical ocorreu mesmo em 1978 quando encontrou-se com Felipe Lemos. Fê era filho de professores universitários e tinha acabado de chegar de Londres, depois de uma estadia com os pais na Inglaterra. Debaixo do braço, alguns discos de rock, quase os mesmos que seriam colocados por Renato para tocar numa festa, em que os dois se encontraram. De cara, ficaram amigos. "A gente não se desgrudava e o Renato ia na minha casa todos os dias", lembrou o baterista do Aborto Elétrico e do Capital Inicial, em entrevista publicada na Showbizz, em maio de 1997. Fê morava na Colina, o conjunto de prédios localizados no campus da Universidade de Brasília, que passou a ser o centro do "movimento" punk de Brasília. Lá, ambos fizeram amizade com outros caras, que também se identificaram com os três acordes que eram a matriz do som feito por Ramones, Clash, Sex Pistols e Comsat Angels. A Turma da Colina reunia Loro Jones e o irmão Geraldo Ribeiro (futuros integrantes da Bltx 64, depois Capital Inicial e Escola de Escândalo), André Müller e o irmão Bernardo (Metralhaz, depois Plebe Rude e Escola), Gutje Woorthman (fundador da Blitx 64 e depois da Plebe), Bi Ribeiro (Paralamas) e muitos outros. No começo, não passavam de uns 20 moleques. Dedicavam suas horas a ouvir discos, promover festas, passear pelas quebradas de Brasília... Fê era amigo de André Pretorius, um sul-africano filho de diplomatas, que morava em Brasília e ostenta - de fato - o título de primeiro punk da cidade. Os dois, mais André Müller, planejavam montar uma banda, que acabou não acontecendo, porque André, dessa vez, mudou-se para a Inglaterra. Renato resolveu topar a parada e montar sua própria banda, convidando André e Fê. O nome do grupo surgiu numa tarde de papo furado, no térreo dos blocos de apartamentos da Colina.
"A gente tava sentado no chão, pensando qual seria o nome da nossa banda. Eu tava com um negócio de elétrico na cabeça e alguém falou comigo tijolo elétrico. Aí o André Pretórius falou: não, Aborto Elétrico", lembrou Fê à Showbizz, desmentindo a lenda de que o nome teria surgido em decorrência de uma invasão do campus da UnB pelo Exército, numa das famosas ações do governo durante a ditadura militar, quando uma estudante universitária teria perdido o filho em decorrência de um cacetet elétricos utilizado por um soldado mais afoito. A primeira apresentação ocorreu muito tempo depois, em 1980, quando resolveram fazer um show no Só Cana, o extinto bar localizado no Gilberto Salomão, no Lago Sul, bairro de classe média alta. "Nós fomos, levamos umas coisas, o Fê estava com caxumba, febre de 40 graus e, quando terminamos o set de cinco músicas, o pessoal reagiu com: Êhhhh! De novo! Porque brasileiro gosta muita de zona. Então, dá-lhe zona. Eles não entenderam nada: todo mundo parado... Aí tocamos as cinco músicas de novo e, pelo que eu soube, a cidade inteira falou disso depois. Porque, primeiro, ninguém tinha ouvido falar de um grupo de música chegar e tocar de graça e ainda fazer aquele barulho. E o guitarrista loiro (Pretorius), sangrando a guitarra. O Aborto Elétrico era assim – Paaammmm!!! E não era rápido – era lento, tipo (Sex) Pistols. Aí o que aconteceu, a cidade começou a falar. Nos colégios de classe média – Objetivo, Elefante Branco, Marista... – o comentário era: Você viu? Aqueles caras são maconheiros, bla blá blá...", lembrou Renato, em entrevista à jornalista Sonia Maia, publicada na revista Bizz abril de 1989. O grupo logo começou a realizar apresentações mais ou menos constantes, em qualquer lugar onde pudessem arrumar uma tomada elétrica. O Food’s, antiga lanchonete situada entre a 110 e 111 Sul, era um dos points do Aborto e das outras bandas que surgiram logo depois na esteira. Na época eram três grandes bandas: Metralhaz, Blitx 64 e Aborto. As três bandas, embriões das quatro grandes bandas brasilienses dos anos 80 – Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Escola de Escândalo – tocavam em festas, nas quadras, em bares como o Cafofo, na 409 Norte, na UnB, nos colégios... Em 1981, Pretorius mudou-se do Brasil e voltou para a África do Sul com o pai diplomata – "servir ao Exército e matar os negros", disse Renato, que assumiu a guitarra. Flávio Lemos, irmão de Fê, passou para o baixo e a banda continuou. Os Lemos mudaram-se para o Lago Norte, abrindo um novo local para os ensaios da banda, que passou a dividir o espaço com uma nova banda: a Plebe Rude. "Passávamos os ensaios sacaneando o Renato, desligando a chave geral da casa", recorda Philippe Seabra. Nesse período, a turma cresceu, passando a fazer grandes agitos, pintando camisetas, confeccionando seus próprios badges, pichando os muros e pontos de ônibus da cidade. Renato era tão convicto do que fazia que tinha bolado em casa a capa e o encarte do LP do Aborto, que jamais foi lançado, claro. Dentro da capa do disco, um LP com um selo colado por cima. O sonho do disco próprio não era tão maluco assim, afinal em 1980 uma banda de Brasília já lançado um disco independente.
Era o Tellah, a primeira grande banda brasiliense, na época, de quem Renato era fã e enchia o saco para descolar um show conjunto. "Os caras eram músicos de verdade e tinham prestígio", disse em entrevista ao Correio Braziliense, em 1985. Haviam outros grupos, como o Liga Tripa e o Fusão, além da galera do Artimanha, que fazia jazz e música instrumental. É verdade que o compositor Renato Russo já tinha nascido e boa parte do repertório inicial do Capital e da Legião foram gerados ainda dentro do Aborto. É dessa época, por exemplo, músicas como Conexão Amazônica, Música Urbana, Tédio (com um T bem grande prá você), Veraneio Vascaína, Que país é este?, Fátima, entre outras pérolas que se tornaram clássicos do rock brasileiro. A banda estava no auge em Brasília quando uma briga entre Fê e Renato acabou com tudo. "Eu briguei com o Fê por causa da música Química", disse Renato. "Nessa época estávamos supersofisticados, ouvindo sei lá o quê – Joy Division, essas coisas e eu cheguei com aquela música: Não saco nada de química... E eles: Pô, Renato, você está atrasado..." Fê bateu pesado: "Você está perdendo seu jeito de fazer música". Depois, reconheceu que errou em seu pré-julgamento: "Que bobagem minha! Hoje a música é um clássico". Antes, outro desentendimento tinha deixado a relação de amizade entre os dois estremecida. Em dezembro de 1981, no primeiro aniversário da morte de John Lennon – ídolo de Renato – o Aborto realizou um show em Taguatinga. "O Renato estava super sentido. Quando ele errou uma música, atirei uma baqueta nele e acertei na cabeça. Ele me olhou com uma cara horrível e sumiu depois do show. Fui na casa dele e só faltou me jogar aos seus pés...", lembrou Fê. A banda morreu, contudo, em março de 1982. O fim do Aborto não levou Renato a desistir da música. Muito pelo contrário. Estava convencido que seu trabalho era bom. E era. Passou então a se apresentar sozinho, munido de um violão de 12 cordas, nos intervalos dos shows da Plebe e da Blitx 64. Uma espécie de Bob Dylan – uma de suas grandes influências – do cerrado. São dessa época as músicas Faroeste Caboclo, Eduardo e Mônica, Eu Sei e Dado Viciado. Philippe Seabra lembra que no intervalo dos shows das bandas, quando Renato subia ao palco para se apresentar, ele e a turma da Plebe perturbavam o "Trovador Solitário". "Ficávamos jogando moedas só para ver a cara dele. "Eram baladas com uma história (começo, meio e fim) bem diferentes do seu estilo junto ao Aborto Elétrico. Invitavelmente, essa mudança começou a chamar atenção a atenção de pessoas menos ligadas – havia os que detestavam de verdade – ao movimento elétrico da cidade. Agora era possível compreender as letras das músicas, o que tinha sido impossível até então, devido a problemas com microfones e volume alto demais", escreveu o próprio Renato num proto-release press, em maio de 1982. Ele chegou a gravar algumas dessas composições numa fita k7, em que brincava de locutor de uma imaginária Rádio Brasília.
A Legião Urbana a tudo vence Essa fase violão e voz durou até agosto daquele ano. Nesse mês, Renato resolveu montar uma nova banda. Encontrou-se com Marcelo Bonfá, baterista egresso do SLU – uma brincadeira com a sigla da companhia de lixo de Brasília, Serviço de Limpeza Urbana, e que tinha tido uma rápida passagem pelo grupo Dado e O Reino Animal -, numa festa organizada por André Müller. A idéia, segundo Renato, era montar um núcleo mínimo para a banda – baixo e bateria – e convidar guitarristas esporadicamente para tocar como convidados. A idéia em gestação, entretanto, não foi para frente. A banda, entretanto, já tinha nome: Legião Urbana. O guitarrista que se fixou, inicialmente, foi Eduardo Paraná ou Kadu Lambach, ex-Boca Seca. E a banda incorporou o tecladista Paulo Paulista, que estreava como músico aos 16 anos, mas manteve-se na banda por pouquíssimo tempo. Com essa formação, a banda se apresentou, em fevereiro de 1983, em Patos de Minas (MG), junto com a Plebe Rude – a banda mais importante de Brasília naquele momento -, na chamada Feira do Milho. A estréia acabou com um pequeno problema entre as duas bandas e a polícia local. A Plebe detonou a canção Vote em branco e mexeu com os brios do poder local. Todos acabaram em cana.
"Vivíamos o governo Figueiredo e estava cheio de polícia no lugar. Enquanto tocávamos, André Müller, conversava com os peões da platéia, jogando todo aquele papo socialista que a gente já conhece das músicas da Plebe Rude. Durante o show, eles perguntavam aos trabalhadores o que achavam do salário que recebiam, se concordavam com as condições em que viviam... Foi só descermos do palco, que havia uma fila de policiais nos esperando para nos levar para a delegacia", lembrou Kadu Lambach, o Paraná, em entrevista à Showbizz, em 1997. Kadu ficou na banda por pouquíssimo tempo também, fazendo ainda mais três shows, inclusive dois realizados ao ar livre, no Teatro do Cave, no Guará, e na Ciclovia do Lago Norte, onde tocaram grande parte do repertório do Aborto e duas canções próprias, jamais gravadas: Carne Clandestina e O Cachorro. A primeira era fruto da vivência de Renato como repórter do Jornal da Feira, editado pelo Ministério da Agricultura. Kadu saiu, por iniciativa própria, em decorrência das divergências musicais com Renato e Bonfá. Era um virtuoso na guitarra, algo que não agradava os garotos que adotaram como lema o do it yourself sugerido pelos punks ingleses. No lugar do fã de Jimmy Page e Jimi Hendrix, que adorava solar, foi convidado a integrar a banda um velho conhecido de Renato: Iko Ouro Preto, que chegara a fazer parte do Aborto na sua última fase. Irmão de Dinho Ouro Preto, futuro vocalista do Capital Inicial e integrante de uma das inúmeras formações de Dado E O Reino Animal, Iko ficou pouquíssimo tempo. Reza a lenda que sua passagem pela banda não durou um mês. Em março de 1983, Bonfá convidou Dado Villa Lobos, ex-companheiro de banda, para ocupar a vaga de guitarrista. A pressa em descolar um substituto para Kadu, que deixou a banda para se dedicar à música, se justificava. Em abril, o grupo era uma das estrelas da chamada Temporada do Rock Brasiliense, realizado durante dois finais de semana no Teatro da Associação Brasileira de Odontologia (ABO). Além da Legião, apresentaram-se as outras bandas importantes da cena local: Plebe Rude, Capital Inicial e XXX, que depois geraria o Escola de Escândalo, e a Banda 69. "Como havíamos alugado o teatro, ficamos ensaiando lá direto", lembra Dado. "A gente era quase hardcore, mas como as melodias do Renato eram geniais, o resultado acabou ficando bem satisfatório". Usando um pijama como roupa, o novo guitarrista estreou na banda num teste de força, tendo em vista que sua guitarra quebrou logo depois das duas primeiras canções. Mas a banda não deixou cair a bola. Renato já era um grande entertainer, emendou uma jam com a platéia – Adahn (que está na seção raridades da RockBrasília) e fez bonito. "Viramos a zebra do páreo", recorda Dado. "Nos saímos tão bem que a galera resolveu nos dar a maior força". Na platéia, uns cinqüenta gatos pingados assistiam ao show. "Só tocamos umas sete músicas. Era mais um negócio de tocar para os amigos, uma festa...", avaliou. Logo depois, uma matéria publicada na revista Pipoca Moderna, escrita por Hermano Vianna, irmão do líder dos Paralamas, chamou a atenção da imprensa nacional para o movimento brasiliense. "O cerrado contra-ataca", escreveu. Em pouco tempo, graças aos Paralamas, que já haviam montado a banda, gravado o primeiro compacto com a EMI e mandavam ver nos shows Conexão Amazônica, Tédio (com um T bem grande para você) e Química, a Legião desceu para o eixo Rio-São Paulo para fazer suas primeiras apresentações.
Nas mãos, a primeira demo do grupo, com quatro canções – Ainda É Cedo, Conexão Amazônica, A Dança e Petróleo do Futuro, gravadas no estúdio Gravasom, no Brasília Rádio Center, mesmo prédio onde a banda mantinha uma sala de ensaios, junto com Capital, Plebe e XXX. A demo chega, pelas mãos dos Paralamas, à Rádio Fluminense do Rio, que a inclui na programação. Em julho daquele mesmo ano, o grupo toca no Circo Voador – o mais importante templo do rock carioca -, junto com o Capital Inicial e Lobão. Em outubro, foi a vez de encarar a platéia do Napalm, uma das grandes danceterias de São Paulo, também ponto de encontro dos roqueiros paulistas, e, novamente, fazer o Circo. No verão de 1984, junto com a Plebe e os Paralamas, além de outros grupos, participaram do 1º Fest Rock 84, mais uma vez no Circo Voador. A imprensa especializada cobriu o evento e mostrou-se surpresa com a banda. O grupo tocara um dia antes no Rose Bom Bom, outra danceteria também de São Paulo, junto com a Plebe. Rapidamente, a fama da Legião no circuito alternativo começa a crescer, despertando a atenção da EMI, que propõe a gravação de um compacto com Geração Coca Cola. A proposta não agrada os três, já que a gravadora quer uma versão country (?!?) para o velho hino dos tempos do Aborto. Seguem-se novas apresentações, até que a banda fecha o contrato, depois de muitas desavenças com a EMI, que queria empurrar Marcelo Sussekind, guitarrista da banda carioca Herva Doce, para a produção, e contando com um novo integrante: Renato Rocha, o Negrete, egresso da banda de hardcore Dents Kents. No início de 1985, a EMI lança Legião Urbana, com produção do jornalista José Emílio Rondeau, em meio ao Rock In Rio, que consagrou os Paralamas e incluiu o Brasil no roteiro das grandes bandas de rock americanas e inglesas. "É a única maneira de ver o seu produto bem divulgado, já que a produção independente, além de muito cara, atinge só a um público de elite", definiu Renato, em entrevista à jornalista Wilma Lopes, publicada no Jornal de Brasília. "Há o lado negativo, mas este é contrabalançado pelas vantagens do lado positivo, que é bem maior. Com jeito, se faz muita coisa. Conseguimos fazer o disco como queríamos, desde a escolha da música até a capa e o encarte".
A banda lançou o disco em duas apresentações realizadas em março daquele ano na Escola Parque de Brasília. "Essa é a nossa primeira produção de verdade", disse Dado, na época. Os shows, antológicos, mostravam que havia algo maior no ar. As duas apresentações tiveram casa cheia. O sucesso na cidade já havia sido consolidado com apresentações ao longo de 1984 nas cidades-satélites. Taguatinga abrigava o Teatro Rolla Pedra, espaço garantido às bandas brasilienses, que se multiplicavam. O jornalista Celso Araújo, em artigo publicado no Correio Braziliense, não poupou elogios. "O disco é veloz, tem a marca mesma da agilidade e da tesitura urbana brasilienses", escreveu. "Legião Urbana faz uma crônica sentimental, sem futilidades", destacou. "Os legionários são o petróleo do futuro". O disco chegava às lojas junto com o fim da ditadura militar e o início do processo de redemocratização do Brasil, que via nascer a Nova República. "A gente tem esperança que as coisas vão melhorar. É daqui de Brasília que vai surgir a garotada nova, com idéias novas, não só na música, mas no campo das artes em geral", previa Renato. "Para o futuro, planejamos muita música, muitos agitos, muito trabalho e tudo de bom". E assim foi... Quinze anos depois, a poesia e a música de Renato estão aí, servindo de exemplo e inspiração de vida para todos. |
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